quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Medidas para o tempo

Um ano depois, e o sabonete líquido no banheiro ainda é o mesmo. E a embalagem de detergente sobre a pia também. Doze meses morando no mesmo lugar e ainda não conheço meus vizinhos. E continuo me assustando quando eles passam por mim na escada e não me cumprimentam.
Um ano se passou e minha imagem ainda bronzeada do sol continua na carteira de identificação da Deutsche Welle - embora eu já a tenha perdido uma vez e retirado uma nova via.
E a minha bicicleta, a Pink, só precisou de um banco novo depois de passar as quatro estações ao ar livre. Em um ano, aprendi algumas leis alemães, algumas mensagens não verbais, tradições bonitas e curiosas, mas ainda não consigo reagir quando me deparo com inflexibilidade e estupidez.
Depois de um ano, ainda continuo batalhando para aperfeiçoar o alemão, tentando interagir com as pessoas nas ruas, e aprendi a abandonar os clichês das culturas diferentes à minha.
De janeiro de 2010 a janeiro de 2011 meu cabelo cresceu bastante, completei 30 anos, fui atropelada, perdi minha memória, reaprendi um monte de coisa, chorei em todas as dolorosas despedidas, vi poucos filmes, li poucos livros, fiquei mais tempo na internet, conheci pessoas incríveis e conheci melhor a Alemanha. Há um ano longe do Brasil.

e fico mais feliz toda vez que abro minha janela e vejo o sol brilhando lá fora

sábado, 25 de dezembro de 2010

Weihnachten

Os alemães levam o Natal muito a sério. No estado da Renânia do Norte-Vestfália, então, com forte tradição católica, os ritos são seguidos à risca. Os mercados de Natal são uma marca registrada: as barraquinhas com delícias gastronômicas se misturam às que vendem enfeites e acessórios fundamentais para encarar o inverno. Um dos mais bacanas que visitei foi o de Siegburg, um mercado medieval. Mas já contei os detalhes antes... (http://www1.folha.uol.com.br/mundo/850462-cidades-alemas-revivem-espirito-de-vida-medieval-em-feiras-no-natal.shtml).O dia 24 aqui é importante, a festa é estritamente familiar - convidados são quase uma proibição. Peru, ganso e até wurst são, geralmente, o prato principal na noite. Também tem a troca de presentes, a árvore, e as luzes piscantes. E os plätzchen! São biscoitinhos assados e doces, deliciosos, que experimentei fazer em casa. Os amigos também se presenteiam com os plätzchen na época natalina, uma forma de gentileza.
Em 2010 houve o fator neve, um Natal branco. E também a celebração da tolerância, compreensão e amizade: sentamos à mesa como representantes da América do Sul, África, Ásia e Oriente Médio, cada um repartiu sua tradição e prato típico. Mas uma coisa pareceu comum a todos: as pessoas também deixam suas compras natalinas para a última hora, até aqui na Alemanha.
(Mercado de Natal em Bonn: frio, neve, luzes e glüwein)

domingo, 28 de novembro de 2010

reloaded


As circunstâncias me colocaram numa busca por registros de experiências que vivi, mas foram varridos da minha memória. Ou que estão em algum lugar que não consigo encontrar. E assim parti numa busca dos testemunhos vivos da minha história.
Descobri que minha mania de assobiar foi herdada do meu avô, o bom humor e otimismo são da minha avó - que também fazem parte da minha mãe. A pausa para respirar antes de decidir é do pai, assim como a busca pelo equilíbrio na hora de dar um conselho.
Mas a vontade de desbravar o mundo foi uma herança genética coletiva, observada em diversas gerações da minha família, cada um à sua maneira.
Minha avó deixou a área rural da Bahia para se mudar para um bairro pobre em Belo Horizonte. Enquanto isso, meus avós paternos deixavam a Paraíba para tentar uma vida melhor na capital paulista, onde meu pai nasceu. Minha mãe chorava para a minha avó deixá-la pegar um ônibus para São Paulo, junto com a minha tia, até que um dia a minha vó disse sim - a mama tinha 18 anos. E foi lá que meus pais se conheceram.
E foi em São José dos Campos que eu nasci, estudei, tive uma infância e adolescência saudáveis, jogava volei, dançava jazz. E foi onde conheci meu marido. Em Bauru fiz a universidade, vivi histórias incríveis e intensas que ouvi recentemente com atenção de todos os amigos que me ajudaram a buscar o passado.
Trabalhei na Isto é Gente, no SBT e na TV Vanguarda, onde também tive experiências profissionais importantes e conheci pessoas bárbaras. O motivo desse blog, aliás, foi a produção internacional de um documentário para a Tv Vanguarda.
E vim parar na Alemanha, movida pelas histórias da distante família que havia vindo daquele país para o Brasil, contadas pelo meu pai.
Dessa história que é minha, mas que perdi, fiz descobertas fascinantes sobre mim. Sem memória, tive que estudar a minha vida: o que fiz, por onde andei, quem são as pessoas do facebook... Foi como ler um livro, assistir a um filme, mas aquele era o papel protagonizado por mim durante 30 anos. E a narrativa não era minha, mas de outras pessoas.
Foi um mergulho, uma experiência muitas vezes inexplicável, dolorida, conflituosa e angustiante.
Vi que não fui criada para ser uma cidadã do mundo, que onde estou agora não é uma simples sequência natural e que nada de bom nesse mundo é conquistado pelos solitários.
Jamais poderia relembrar a minha vida sozinha.
E decidi que, quando estiver pronta, escrevo direito sobre tudo isso. E agradeço a todos que me contaram com emoção, alegria, carinho e sinceridade o que sabem sobre mim.
Daí pensei: mas porque deveria publicar esse texto num post na internet? Não sei bem. Mas é, da mesma maneira que vi tantas histórias parecidas com a minha que me inspiraram, pensei que um dia também esse texto pudesse, de alguma forma, ajudar alguém.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

memória


escondi de mim mesma, por um bom tempo, as falhas na minha memória que só percebi na fase pós-acidente. não escrevi, não produzi coisas que tive vontade, fique à deriva nos meus pensamentos em busca de respostas. não as encontrei, naturalmente.
evitei o confronto com o passado pelo simples fato de ter medo de não me lembrar. e, em Bonn, minha história é recente, tem menos de um ano.
e quando tomei coragem de rever o blog, o susto. aqui registrei memórias logo depois do meu acidente que foram apagadas, que não as tenho mais.
a mente humana...
mas decidi encarar o problema de frente. talvez tardiamente. um di
a, quem sabe, a resposta virá.


a esmagadora grandeza da vida. resta contemplá-la

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Copa fora de casa

Esta é a primeira vez que acompanho uma Copa do Mundo fora do Brasil. O brasileiro é sempre respeitado quando veste a camisa da seleção, isso é bom. E da mesma maneira que há torcedores internacionais natos, há também os que secam, torcem contra mesmo. Os alemães, por exemplo. (seria fruto de alguma experiência passada?)

Também é bacana ver como os alemães mostram todo o patriotismo no dia de jogo – amigos nativos me disseram que isso não era normal até a Copa de 2006: Agora eles saem em carreata e carregam a bandeira, pintam o rosto, vestem peruca nas cores do país. É intrigante... Quando não há jogos, nada disse se vê, DE-JEITO-NENHUM!

Os telões espalhados pela cidade convidam os moradores e forasteiros de Bonn a ver as partidas ao ar livre, sentado no chão ou onde der. Engraçado é que as pessoas pedem licença quando você entra no campo de visão deles: "Você poderia por favor chegar um pouco pra lá porque não consigo ver a televisão dali do fundo?" Na maior educação. E as pessoas questionadas atendem ao pedido!!!!!! É muita fineza ...

Até essas quartas da final, assisti a jogos num bar da praça, num pub irlandês, num biergarten, em casa, na redação, numa sala dentro da empresa juntos com os colegas portugueses na partida contra Portugal... Eu só sinto falta mesmo é do churrasco que fazíamos no Brasil. E tenho que preparar o meu espírito porque na grande final eu estarei de plantão, dando a notícia direto de quem foi o grande vencedor da Copa 2010.

Kaiserplatz, Bonn Brasil contra o Chile

sexta-feira, 11 de junho de 2010

fui atropelada

de verdade. mas não sei contar a história direito: estava em Londres, caminhava em Kilburn carregando sacolas e estava sozinha no momento do acidente. não me lembro de nada, passei uma semana "fora do ar", quatro dias internada, voei de Londres pra Bonn e quase nada ficou registrado no meu cérebro - que, aliás, não sofreu danos sérios, dizem os médicos.
depois de 5 meses morando em Bonn, senti muito a diferença entre a minha atual cidade e a minha antiga e amada morada. entre diferenças e coincidências, guardei algumas coisas nessa minha mente temporiamente abalada.

- em Londres, a médica que me atendeu havia feito residência no Brasil, mas só sabia falar "tudo bem". na Alemanha, a médica que me examinou também havia feito residência no Brasil, e conversava perfeitamente em português.
- no aeroporto londrino passei 12 horas pelo fato de o piloto da Easyjet ter se recusado a me transportar. nos fez deixar o avião quando já estávamos com cintos afivelados. (a carta médica não adiantou, ele queria um fax claro dizendo "she is medically safe to fly"). dormi entre os bancos enquanto aguardava a chegada do documento, peguei fila duas vezes pra fazer check in. quando desembarquei na Alemanha, havia um voluntário para me transportar numa cadeira de rodas da Cruz Vermelha - que já estava informada sobre o meu caso e recebi cuidados especiais.
- os médicos e enfermeiros do Royal Free Hospital foram muito carinhosos - do tipo de pegar na mão e fazer carinho no rosto. os da Uniklinic Bonn foram extremamente profissionais: os
enfermeiros nunca me respondiam quando perguntava se estava tudo bem comigo.
- no hospital em Londres, fish and chips estava no cardápio (!!!!!). na Alemanha, nada de wurst: comida mais balanceada e com pouca gordura (e bem gostosa).
- não há barreiras de língua ou cultura para se fazer amigos maravilhosos. tanto em Londres quanto em Bonn, pude contar com grandes pessoas que muito ajudaram.

(mas vamos continuar nossas pedaladas por aí... essa daqui foi em Dresden)

terça-feira, 11 de maio de 2010

eu tive visões

Os pães, as feiras, os livros baratos, bons vinhos a 2 euros. o idioma. e as cenas incríveis que tento fisgar no clique da minha máquina. E os cinco meses de volta na Alemanha:





(tradição: árvores que declaram a intenção do moço para com o moça e que enfeitam as ruas - das sortudas - todo o primeiro de maio. essa estava em frente ao meu prédio, mas, não era pra mim!)




(quando as vi pela primeira vez, ano passado, me apaixonei por essas "margaridinhas" que cobrem os gramados. e elas voltaram, é primavera.)





(uma feira na praça central, num domingo de maio: caracterização pra vender o pão!)




(reforma no prédio da antiga prefeitura. jeito bem humorado de comunicar o fato aos turistas.)



(primavera em Bonn: mas os casacos estão a postos. as temperaturas variam entre 5 e 13 graus... ainda não dá pra deitar na grama e tomar sol...)